Pular para o conteúdo
Cangaço Digital

Modus operandi

Ataque via PSTI: quando a invasão não é no banco

Dois ataques em dois meses desviaram centenas de milhões sem que nenhum banco fosse invadido. O que é um PSTI, como o desvio acontece e o que veio depois.

Por Julio Cesar Madeira Soares, Perito em Investigação Digital e Segurança da Informação.
Publicação prevista para

Texto ainda não publicado

A entrada no ar está prevista para 10 de novembro de 2026. Você chegou aqui por um link de outro texto do site. O conteúdo está completo, mas ainda não aparece na página inicial, na seção, no RSS nem nos buscadores, e pode receber ajustes até a data de publicação.

Em julho e agosto de 2025, duas empresas de tecnologia foram atacadas e centenas de milhões de reais saíram de instituições financeiras brasileiras. Nenhum banco foi invadido. Nenhum cliente entregou senha. Nenhuma vítima caiu em conversa de falsa central.

Esse é o tipo de fraude que quase não aparece em conteúdo jurídico, e é a que vai gerar mais litígio nos próximos anos, porque envolve três partes que se apontam mutuamente: a instituição, o prestador de tecnologia e o cliente final.

O que é um PSTI

PSTI é a sigla de Provedor de Serviços de Tecnologia da Informação. No desenho brasileiro, é a empresa que presta serviço de processamento de dados para que uma instituição acesse a Rede do Sistema Financeiro Nacional.

Traduzindo: muita instituição não tem infraestrutura própria para se conectar ao Banco Central e ao arranjo Pix. Ela contrata quem tem. Esse fornecedor fica, literalmente, no caminho do dinheiro.

E aí está a característica que define o risco. Um PSTI não guarda dinheiro, não tem cliente final e não aparece no aplicativo de ninguém. Mas ele conversa com o sistema financeiro em nome de várias instituições ao mesmo tempo. Comprometer um PSTI é comprometer todos os seus clientes de uma vez.

Dois ataques em dois meses

Caso Quando O que se sabe
C&M Software 1º de julho de 2025 Tratado como o maior ciberataque da história do sistema financeiro brasileiro. Não houve confirmação oficial de valores: uma apuração indicou prejuízo de pelo menos R$ 400 milhões, outra falou em até R$ 1 bilhão. Entre os afetados foram noticiados Banco Paulista, Credsystem e Banco Carrefour, além de uma igreja que teve operações restritas. Parte dos recursos foi convertida em criptomoedas
Sinqia 29 de agosto de 2025 Ataque ao ambiente de integração do sistema Pix da empresa, adquirida pela Evertec em 2023. Desvio noticiado de R$ 420 milhões, sendo R$ 380 milhões do HSBC e R$ 40 milhões da Artta. O Banco Central identificou o problema por volta das 15h30 daquele dia e cortou o acesso da empresa ao sistema financeiro. Cerca de R$ 350 milhões já haviam sido bloqueados

Os números do primeiro caso seguem sem confirmação oficial, e é assim que devem ser tratados. Os do segundo aparecem com consistência maior na cobertura, embora haja divergência: uma reportagem menciona montante superior ao noticiado pelos demais veículos.

Como o desvio acontece

A parte técnica é menos exótica do que a manchete sugere, e é justamente isso que a torna preocupante.

No caso da C&M, segundo o que foi apurado e noticiado, os criminosos não quebraram criptografia nem exploraram falha inédita. Obtiveram credenciais legítimas de um funcionário, que teria vendido o acesso por R$ 15 mil, e usaram essas credenciais para gerar transações a partir de dentro.

Repare no desequilíbrio: quinze mil reais de um lado, centenas de milhões do outro. Nenhum controle técnico compensa um incentivo econômico com essa proporção, e é por isso que gestão de acesso de pessoas com privilégio deixou de ser tema de TI e virou tema de risco.

O padrão, de forma geral, é este:

  1. Acesso inicial, por credencial comprada, vazada, reutilizada ou obtida por engenharia social.
  2. Movimento dentro do ambiente, até alcançar o sistema que fala com a rede do sistema financeiro.
  3. Emissão de transações que parecem legítimas, porque tecnicamente elas são: estão assinadas com credencial válida, vindo do lugar certo.
  4. Dispersão imediata, com o valor caindo em contas que já estavam preparadas para receber e sair.
  5. Conversão, com parte indo para ativo digital ou saque, para romper o rastro.

Os passos 4 e 5 são os mesmos de qualquer fraude de varejo, e dependem da mesma infraestrutura de contas de passagem. A diferença é a escala da entrada.

Por que o prejuízo escala

Em fraude contra pessoa física, o criminoso precisa repetir o golpe milhares de vezes. Cada repetição tem custo, risco e chance de falhar.

Aqui, o ataque acontece uma vez e o dinheiro sai de várias instituições simultaneamente, em volume alto, em minutos. É a diferença entre pescar com vara e romper a barragem do açude.

Tem um agravante de detecção. Uma transação com credencial válida, originada da infraestrutura correta, não aciona os mesmos alertas que uma transação de cliente com comportamento atípico. O monitoramento antifraude tradicional olha para o cliente final, e nesse tipo de ataque o comportamento anômalo está no canal, não no cliente.

O que a regulação fez depois

Aqui vale montar a linha do tempo, porque ela explica o ano regulatório inteiro.

Data O que aconteceu
1º/07/2025 Ataque à C&M Software
29/08/2025 Ataque à Sinqia
05/09/2025 Resolução BCB nº 498, que estabelece requisitos, procedimentos e condições para o credenciamento de PSTI para acesso à Rede do Sistema Financeiro Nacional
11/09/2025 Resolução BCB nº 501, com o dever de rejeitar pagamento destinado a conta com fundada suspeita de fraude
26/09/2025 Resoluções BCB nº 506 e nº 507, com o fim do participante não autorizado e o novo Manual de Penalidades
30/01/2026 Resolução BCB nº 547, que altera a 498 e torna o credenciamento de PSTI mais restritivo

Oito semanas separam o segundo ataque do pacote inteiro. Quando se lê o ano de 2025 dessa forma, fica claro que as normas de setembro não foram agenda planejada, foram resposta.

O que a Resolução 498 passou a exigir de um PSTI, em resumo: credenciamento junto ao Banco Central, capital mínimo de R$ 15 milhões, governança, segurança da informação e cibernética, auditoria, certificações, plano de continuidade e seguro de responsabilidade civil e de riscos operacionais, incluindo incidentes cibernéticos.

Essa última exigência merece atenção de quem trabalha com contrato. Quando o regulador obriga a contratação de seguro para um risco, ele está declarando que espera que o risco se materialize e que alguém precise responder financeiramente por ele.

A Resolução 547, de janeiro de 2026, apertou mais: o Banco Central passou a poder exigir, a qualquer momento, capital social e patrimônio líquido superiores aos apresentados no credenciamento inicial, e foram reforçadas as exigências de governança, controles internos e compliance, com relatório anual e mecanismos de rastreabilidade.

Onde a responsabilidade vai ser discutida

Essa é a parte que ainda está em aberto e que vai ocupar o jurídico dos próximos anos. Os eixos previsíveis:

Entre a instituição e o cliente final. O cliente lesado não tem relação contratual com o PSTI. Ele contratou o banco. A discussão tende a seguir a lógica do fortuito interno, tratando a falha do fornecedor como risco da atividade de quem o contratou.

Entre a instituição e o fornecedor. Regresso, limitação de responsabilidade em contrato, cobertura de seguro e o que exatamente estava previsto em nível de serviço e de segurança.

Diligência na contratação. Com a 498 e a 547 na mesa, ficou mais difícil sustentar que a escolha do fornecedor foi um ato puramente comercial. Existe agora um conjunto de requisitos objetivos que dá para verificar antes de assinar, e não verificar passa a ser uma decisão com consequência.

O que preservar nas primeiras horas

Incidente desse tipo tem uma característica cruel: a pressa de restabelecer o serviço destrói a prova de como ele caiu. Reconstruir ambiente, recriar máquina e rotacionar credencial são medidas corretas de resposta e são, ao mesmo tempo, destruição de vestígio quando feitas sem preservação prévia.

O mínimo que precisa ser congelado antes de qualquer restauração:

  • Imagem dos sistemas comprometidos, e não apenas os logs deles
  • Log de autenticação e de autorização, com fuso declarado
  • Registro de sessão e de acesso remoto do período
  • Trilha das transações emitidas, com identificador e horário
  • Configuração vigente no momento do incidente, antes de qualquer correção
  • Registro de quem fez o quê durante a resposta, incluindo horário

Tudo isso obedece às mesmas regras de cadeia de custódia que valem para qualquer prova digital, com um complicador: aqui a coleta acontece durante uma crise, com pressão de negócio para voltar a operar. Por isso a decisão de quem preserva e como preserva precisa estar definida no plano de resposta, e não ser tomada às três da manhã.

O que perguntar ao seu fornecedor

Para quem contrata PSTI ou qualquer provedor com acesso à infraestrutura de pagamento, um roteiro curto:

  1. Você é credenciado junto ao Banco Central, e qual a situação atual do credenciamento?
  2. Quem, na sua empresa, tem acesso privilegiado ao ambiente que fala com a rede do sistema financeiro, e como esse acesso é revisado?
  3. Como funciona a segregação entre os ambientes dos seus diferentes clientes?
  4. Qual a cobertura do seguro exigido pela norma, e o que ela exclui?
  5. Em caso de incidente, qual o seu procedimento de preservação de evidência antes da restauração?
  6. Em quanto tempo você me comunica um incidente, e por qual canal?
  7. Posso auditar, ou receber relatório de auditoria independente?

Se alguma dessas perguntas causar desconforto no fornecedor, isso já é uma resposta.

Fontes

  1. Ataque hacker milionário ao Pix: quais instituições foram afetadas. Exame. Acesso em 12/09/2026.
  2. C&M: empresa alvo de ataque hacker bilionário retoma parte das operações. Exame. Acesso em 12/09/2026.
  3. BC autoriza que empresa vítima de ataque hacker volte a operar. Agência Brasil. Acesso em 12/09/2026.
  4. Hackers desviam R$ 420 milhões em ataque a sistema Pix da Sinqia; HSBC é um dos afetados. Exame. Acesso em 12/09/2026.
  5. Ataque hacker mira empresa de sistema Pix e desvia R$ 420 milhões. Olhar Digital. Acesso em 12/09/2026.
  6. Novo ataque hacker liga alerta sobre riscos de provedores de tecnologia para Pix. Finsiders Brasil. Acesso em 12/09/2026.
  7. Resolução BCB nº 498, de 5 de setembro de 2025. LegisWeb. Acesso em 12/09/2026.
  8. Resolução BCB nº 547, de 30 de janeiro de 2026. LegisWeb. Acesso em 12/09/2026.
  9. BC ajusta a regulamentação dos Provedores de Serviços de Tecnologia da Informação. TI Inside. Acesso em 12/09/2026. Fonte secundária, usada para localizar o documento oficial.
  10. Nova resolução do Banco Central altera atuação de instituições e provedores de serviços de tecnologia da informação no SFN e no SPB. Demarest. Acesso em 12/09/2026. Fonte secundária, usada para localizar o documento oficial.